Uma crítica a Tudo É Rio

O livro “Tudo É Rio” apresenta a história de Dalva, Lucy e Venâncio, um triângulo amoroso cujos desdobramentos representam a vida de muitas mulheres e famílias. Dalva é uma dona de casa que cresceu em uma família que lhe proporcionava muito amor, mas que era pobre, o que a fez trabalhar desde pequena vendendo empadas com suas irmãs. Depois de se casar com Venâncio e de sua família se mudar para uma cidade distante, passou a se dedicar completamente ao lar. O casamento ia bem até a chegada de seu primeiro filho, pois seu marido sentia um ciúme doentio por conta de ela se recusar a transar durante a gravidez.

A princípio, ele não reagiu, mas, ao vê-la amamentar pela primeira vez, seu sentimento tomou uma proporção tão grande, que a espancou. Tal situação deixa claro que Venâncio enxergava a esposa como um objeto e o sexo como seu direito, bem como obrigação de Dalva. Infelizmente, por ele ser o chefe da casa e por prover o sustento da família, ele se considerava dono da companheira. Além disso, ele considerava ter o direito de violentá-la e, para piorar a situação, a única solução encontrada pela mulher foi se afastar dele, mas permanecer na casa, pois não tinha a quem recorrer.

Devido a essa separação, Venâncio passou a frequentar o puteiro, onde conheceu Lucy, que viria a ser sua amante. Esse caso gerou uma gravidez, que forçou a mãe a abandonar o filho com Dalva, para que ela o criasse, devido às circunstâncias em que Lucy vivia.

Apesar de as personagens serem influenciadas pelo forte ideal da família tradicional da época, a esposa não afasta o filho da prostituta e estabelece uma relação parental com ela. É notório que Dalva não se considera melhor do que Lucy, nem julga o trabalho doméstico melhor que a prostituição, pois, ao refletir sobre a questão, entende que ambas estão negociando seu consentimento em troca de sua sobrevivência material. Isto é, Dalva depende do marido para conseguir o sustento de sua família, submetendo-se à violência doméstica, da mesma maneira que Lucy depende do dinheiro proveniente do trabalho sexual.

No entanto, à medida que consegue se desprender da ideia de superioridade de uma dona de casa em relação à prostituta, não se liberta da servidão do trabalho doméstico. Dalva não compreende que seu casamento não se trata, apenas, de uma história de amor e tragédia, nem que a violência doméstica não é uma briga boba, que pode, simplesmente, ser perdoada. Ela não está se abrindo a uma nova chance de amar ao aceitar os “defeitos” de seu marido; na realidade, está entrando em um ciclo vicioso de agressão.

A narração da autora é bem sugestiva com relação ao Venâncio, visto que induz o leitor a crer que o arrependimento dele basta para que se resolva a questão e que o fato de Dalva se afastar e impedir que os filhos entrem em contato com o pai é um orgulho sem sentido. Se sentir arrependido não resolve tudo magicamente, pois não muda seus problemas com a raiva, nem muda a falta de controle emocional, muito menos impede o Venâncio de descontar seu ódio contra sua mulher, que permanece submissa.

A história de Dalva, uma mulher pobre que se tornou financeiramente dependente do marido e, lamentavelmente, propensa à agressão, demonstra que a violência doméstica é impactada por diversos fatores, tais como econômicos, sociais e políticos, e não se reduz a uma questão individual.

Natália Elvira, campus Maracanã

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