Filosofia

Nietzsche: morte de Deus, vontade de poder e a superação do homem

Aqui, espera-se apresentar um quadro geral dos conceitos mais importantes do Nietzsche

Durante o final do século XIX e todo início do século XX, os filósofos minaram um dos principais pressupostos da filosofia iluminista: a tese de que o homem é senhor de seu próprio destino. Por vias diferentes, os mais eminentes pensadores do período provaram que isso não é um fato.

Karl Marx, com a exposição do modo de funcionamento das sociedades de classe, em especial do capitalismo – seu objeto de estudo –, provou que a ação humana é determinada historicamente pelas necessidades do desenvolvimento das forças produtivas. A luta de classes e os seus respectivos interesses atuam como determinante final da ação humana – embora, é verdade, não único.

Já Sigmund Freud refutou a tese iluminista e o livre-arbítrio através da descoberta da relação do inconsciente no pensamento e na ação. Segundo a psicanálise, a consciência não é mais que, por assim dizer, um caso particular do inconsciente, de maneira que o homem é regido pelo princípio de busca do prazer e de fuga do desprazer. Mais uma vez, não é o pensamento racional, puro, que determinaria a ação humana – dessa vez, são seus instintos inconscientes, bem como sua reação aos estímulos da civilização.

Enquanto isso, Friedrich Nietzsche, o pensador que será o coração deste artigo, desenvolveu em suas obras – notadamente em Assim Falava Zaratustra, em que colocava sua filosofia na boca do persa – os três conceitos fundamentais que nomeiam esta matéria.

A vontade de poder é uma tentativa do filósofo alemão de refutar a crença no racionalismo puro. Deriva-se do conceito de Schopenhauer, segundo o qual haveria uma vontade inata, irracional, que se expressaria no desejo sexual e no vício em álcool – vale a pena lembrar que tanto Nietzsche, quanto Schopenhauer desenvolveram suas teorias antes de Freud.

Na versão de Nietzsche, ela é a vontade de agir sobre o mundo ao redor – seja via de invenções, através da busca por dinheiro, da busca por poder político ou na busca por autossuperação, que se relacionará com o conceito de super-homem. Ele não a considera nem boa, nem má, mas a divide em dois estratos: o espírito servil e o espírito senhoril.

Em sua teoria de vontade de poder, todos buscariam criar novos valores ao redor. Mas há aqueles dotados de “espírito senhoril” que o fazem de maneira clara, evidente, através da busca consciente por seus objetivos e pela transformação do mundo. Diferentemente daqueles consumidos pelo “espírito servil”, que criam valores de maneira envergonhada, ardil, escondida – que Nietzsche classifica como enfermos. O caráter desses valores seria o de fazer o homem dotado de espírito senhoril se sentir culpado pelo orgulho, pela força e pelo egoísmo. Esses pregariam o amor ao próximo, o adoecimento do corpo e da alma, a compaixão hipócrita e a exaltação de tudo que é fraco – os maiores exemplos desse espírito doente seria, para Nietzsche, o cristianismo.

Sua crítica ao cristianismo, enquanto exaltação de todos os valores que negam a natureza e que negam a vida – como a condenação dos impulsos sexuais, e da desigualdade, que ele considera como natural –, ganha seu auge em O Anticristo, Ditirambos de Dionísio. O livro é uma crítica a moralidade cristã e uma exaltação do deus grego Dionísio, que representaria os valores inversos do evangelho.

Sua ideia de morte de Deus advém de seu novo código moral, que ele busca erigir. Para Nietzsche, uma vontade fraca e seu respectivo código moral precisam de mestres e nisso consistia a crença em Deus; mas, diante da redução do papel da religião, do avanço da ciência e da secularização das instituições, Deus morreu (metaforicamente) – e, com ele, o homem feito à sua imagem e semelhança. A crença religiosa em um além-mundo, em verdades eternas, etc. seriam apenas sombras da figura divina, que já está morta, mas ainda não desapareceu totalmente.

Tendo morrido Deus, e com ele a antiga moral cristã, Nietzsche põe a questão em termos poéticos: não há mais Deus, agora existe apenas o homem. Mas o mundo pertence ao super-homem, pois homem, assim como Deus, é coisa que está destinada a ser superada.

Nisso, entra o conceito de além-homem (super-homem, ou, em alemão, übermensch). Seria o homem de espírito livre, responsável pela transvaloração de todos os valores, que amassem incondicionalmente o destino, que não buscasse o que ele chama de muletas metafísicas para suportar a vida – como o cristianismo. Haveria uma diferença entre o homem superior, que apenas se libertou das amarras cristãs, e o übermensch, que é um estágio acima, no qual o homem é livre de toda moral, está além do bem e do mal, da verdade e da culpa. Ou seja, é um espírito livre das leis morais, podendo afirmar todos os valores e virtudes superiores – próprias do espírito senhoril, da vontade de poder consciente, da dominação, do orgulho, da força.

Infelizmente, a teoria de superação do homem por Nietzsche ganhou um contorno puramente individual – no qual a sociedade pode, no máximo, contribuir. Ainda que postulasse tal superação para o futuro – afirmando que mesmo o mais superior dos homens ainda era próximo do último homem (que ele identifica como oposto do übermensch), sendo todos humanos, demasiado humanos –, sua visão de mundo não era menos individualista.Para Nietzsche, a solidão se tornou fundamental, dessa filosofia moral ele desenvolveu uma defesa da aristocracia, das sociedades de classe e, portanto, das desigualdades como inerentes à natureza humana – de forma que, afirmava ele, seria preciso proteger os fortes dos fracos. Obviamente, tais resultados errados, frutos de sua concepção limitada do processo social (sobretudo ao afirmar, para usar um jargão nietzscheniano, que é possível “superar o homem” individualmente), ele desenvolveu uma solidão absoluta, a qual pode ter gerado sua doença no final da vida.

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