Shakespeare

Macbeth e a natureza da culpa

Uma análise sobre a obra

Macbeth, exemplar tragédia de William Shakespeare, é classificada por muitos como uma de suas mais funestas obras, e tem como principal centro de discussão os limites que alguns estão dispostos a ultrapassar, e o mal que são capazes de infligir, na desesperada busca por poder. Durante a obra, acompanhamos o destino de Macbeth, um general escocês que partilha profunda amizade com seu monarca, e a trilha de sangue que este e sua companheira Lady Macbeth deixam pelo seu caminho até a coroa.

A peça começa de maneira sinistra, com uma previsão por três entidades nefastas, três bruxas, que “abençoam” com diversas profecias: prometem a ele o baronato de duas províncias, e ainda o ditam como “Aquele que será rei”. Ao longo da trama, as promessas de sua promoção a Barão se provam verdadeiras, e, depois de contar do estranho caso a sua esposa, é influenciado por ela a dar um pequeno empurrão ao destino. Por coincidência, receberia o rei em sua morada em breve, então arquitetou sua execução na calada da noite, deixando que a culpa recaísse sobre um coitado que estava perto. Pouco após o acontecimento, cai em si. Percebe a gravidade do que fez e o arrependimento é forte e imediato. Lady Macbeth o repreende com robustez, e, no mesmo noturno ambiente, solta a máxima que passa a rodear toda a sequência da obra: “O que está feito, está feito”, dando a entender que, a partir deste momento, não há mais volta. Deste ponto em diante, o casal segue numa frenética sequência de assassinatos e mentiras até finalmente conseguirem sentar no trono.

Assim, vemos Shakespeare materializar através desta macabra obra um dos pontos mais sombrios, e mais recorrentes, da natureza humana, a ganância, e os efeitos que ele causa sobre a mente de um indivíduo, o forçando a agir como nunca antes imaginou agir. Macbeth tinha o rei na mais alta estima, e mesmo assim o trai para ter seu desejo concebido. Essa ambição doentia que vemos tomar o general, por mais assustadora que seja, não é algo anormal, como podemos ver outros agirem assim no cotidiano, procedendo sem pensar duas vezes quando podem ganhar algo tão bom de jeito tão fácil, bastando um único sacrifício, que ainda é alheio.

Porém, logo atrás dessas ações, rapidamente segue outro sentimento, ou conjunto de sentimentos, que Shakespeare destaca tão bem durante o conto, a culpa. Pesada e melancólica, essa sensação de arrependimento penetra a carne e atormenta a alma, forçando até mesmo a mais dura das mentes a rachar. A lembrança de tudo que fez, e pelo motivo egoísta que fez, persegue o infeliz, que tenta de toda maneira se livrar dessa perturbação, como é representado em uma cena em que a agora rainha L. Macbeth, no meio da noite, tem uma crise de sonambulismo enquanto se lembra do assassinato do antigo rei. Ela se dirige a uma pia, e, mesmo desacordada, fala: “Sai, sai, mancha maldita!”, enquanto força suas mãos contra a água correndo. E continua: “Haveríamos de ter medo do quê? Quem é que vai saber, quando ninguém tem poder para obrigar-nos a contar como nós chegamos ao poder? E, ainda assim, quem poderia adivinhar que o velho tinha tanto sangue nas veias?”. Pouco depois desse surto inconsciente, a rainha dá fim à própria vida, não aguentando mais o fardo do segredo que carregava. À vista disso, percebemos que, por mais grandiosa que seja a recompensa, se esta será conquistada sobre a desgraça de alguém, é melhor que tenha estômago para isso, ou a culpa o consumirá.

Sander Vilar – BM 141

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