Palestina livre

Em defesa do Hamas

É preciso defender os movimentos de luta armada que se colocam na linha de frente para derrotar o Estado ilegítimo de Israel

Neste mês, o mundo foi tomado por uma discussão sobre a questão palestina, em virtude da ação militar do Hamas – partido político palestino, predominante em Gaza, que tem um braço armado – contra o pseudoestado ilegítimo de israel. É completamente impossível seguir na discussão sem ter uma ideia, ao menos superficial, sobre o que é “israel” e sobre a brutalidade do processo de colonização contra os palestinos. 

Além disso, convido o leitor a abandonar o moralismo e o pacifismo na análise da luta dos oprimidos: os oprimidos devem lançar todos os meios à sua disposição para se libertar da situação de opressão. É infantil, utopicamente reacionário, chamar os oprimidos a deporem suas armas e buscarem o diálogo com o opressor – isto é, no máximo, uma maneira de amenizar suavemente a Nakba – ao invés de lutar para se libertarem. Ainda mais no caso de “israel”, que desrespeita todos os tratados internacionais, inclusive a Convenção de Genebra, ao usar armas de fósforo branco.

Pois bem: “israel” foi formado em 1948 por imposição da ONU, pela pressão dos Estados Unidos e da Inglaterra – vale lembrar, com o apoio criminoso da União Soviética de Stálin. Antes disso, o território era o Mandato britânico da Palestina; voltando um pouco mais, à época da Primeira Guerra Mundial, era um território do Império Turco-Otomano. A Inglaterra prometeu aos palestinos a independência, em caso de ajuda na I Guerra; aos judeus, prometeu a colonização do território – só cumpriu, obviamente, a segunda promessa. Antes, moravam quase que exclusivamente palestinos na região – que foram segregados, expulsos de seu território, assassinados e violentados de todas as formas possíveis.

O brutal processo de colonização, somado ao de limpeza étnica – isto é, incentivo da imigração de judeus a “israel” e expulsão dos palestinos –, bem como de apartheid – semelhante ao que foi na África do Sul, em que etnias diferentes eram segregads; em Gaza, até vacina contra a COVID-19 foi negada ao palestinos, e o acesso à água e comida é racionado por “israel”.

Outro ponto a ser debatido seria uma suposta “autodeterminação” dos judeus sobre aquele território por motivos histórico. Mas esse argumento é falso em todos os sentidos: 1) Não existe autodeterminação sobre um território que uma etnia ocupou há mais de 1000 anos atrás; 2) A fonte da suposta autodeterminação é a Bíblia, que é um livro religioso – e dos próprios judeus; 3) Na própria Bíblia, a região já era ocupada pelos filisteus; 4) Nunca, em toda história até o final do século XIX, existiu um movimento de judeus que buscassem “retornar” ao território palestino.

E, por fim, 5) O sionismo, que é a ideologia fascista que defende o roubo de terras dos palestinos, de caráter profundamente racista, é extremamente recente, surgiu no livro O Estado Judeu, do Theodor Herzl (de 1897). Nele, se levantava a hipótese de que esse Estado fosse na Palestina ou na… Argentina (porque é parte de uma das maiores comunidades judaicas no mundo). A Palestina só foi escolhida para a colonização no I Congresso Sionista da Basileia.

Ou seja, a formação de “israel” é totalmente artificial – só foi levada adiante, porque servia aos interesse imperialistas de manter um protetorado de sua política sobre o Oriente Médio. A soberania dos palestinos sobre o território é totalmente indiscutível, sendo fato líquido e certo. A opressão a que eles estão sujeitos é a, disparada, maior opressão a que um povo é submetido contemporaneamente. Mas, então, são colocadas três questões: 1) A solução de dois Estados é possível – ou, ao menos, progressiva? 2) A ação do Hamas foi correta? Deve-se apoiar a violência? 3) Mas o Hamas tem uma ideologia fundamentalista islâmica!

Respondendo a isso: 1) Não. É impossível; enquanto existir “israel”, eles vão desrespeitar, com a anuência dos EUA, todos os tratados internacionais, forçar assentamentos em territórios palestinos e recorrer à força militar para usurpar a Palestina. Além disso, é uma vergonhosa capitulação a este estado de coisas: o direito à autodeterminação é dos palestinos, não se pode negociar sua própria soberania. O correto seria defender um Estado único, laico, palestino, em que os povos convivam em harmonia – como era antes da invenção de “israel”.

2) Totalmente; depende de seu conteúdo. Se ela tiver um conteúdo progressivo, sim; se for reacionário, não. Para responder melhor ao segundo ponto, é preciso ter claro que há toda uma série de mentiras contra o Hamas, já que o aparato de imprensa, de propaganda e de manipulação do sionismo é um dos mais desenvolvidos do mundo – como a mentira de que teriam matado bebês ou de que seriam um grupo terrorista. No entanto, mesmo que fosse verdade, não mudaria em nada a situação: ninguém deixaria de ser abolicionista, porque um escravizado não se limitou a fugir, mas decidiu matar seus senhores – ou, ainda mais, matar a família dele, como tantas vezes ocorreu em revoltas de escravizados; a maior delas, na Revolução Haitiana.

Será que deveríamos, então, apoiar a luta contra os militares ou contra os senhores de escravos, mas condenar a violência “desnecessária” ou eventuais atos de crueldade? Não. Por um motivo muito simples: quando submetidos a opressão, os opressores não se preocuparam em ensinar os direitos humanos, a civilidade e os bons modos aos oprimidos; então, quando eles se revoltam, é ridículo cobrar que hajam com esses preceitos. Toda reação dos oprimidos, mesmo que tenha um caráter de violência “em excesso” (como foram as revoltas contra a escravidão no Brasil), deve ser aplaudida: representa um avanço na consciência das massas que só a luta pode libertá-los, e o grau de violência só pode ser medido pelo nível de indignação que neles está presente.

3) É verdade, o Hamas não defende a mesma formação de Estado que eu defendi agora há pouco – defendem um Estado único, palestino, mas islâmico. No entanto, a relevância disso é nula. Não devemos julgar os processos de resistência de um povo por um caráter ideológico ou dogmático: devemos apoiar aqueles processos que, efetivamente, podem libertar a humanidade da opressão, por todos os meios que forem necessários. Nesse sentido, como as ações militares do Hamas se chocam contra a existência do falso-estado de “israel”, apoiá-las 100% ainda seria muito pouco: eu apoio 1000%.

Heinrick Aguiar – BM 141

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