Caos contemporâneo e tranquilidade estoica

Domínio Macedônico. Queda da democracia. Eudaimonia (“felicidade”). Essas são as chaves para entender o surgimento do manual de sobrevivência estoico de busca da felicidade. Em meio ao domínio imperial de Alexandre, o Grande, sobre a Grécia Antiga, enterra-se a filosofia cidadã grega para vislumbrar o estudo da autorrealização e o alcance da tranquilidade, a ataraxia (“ausência de preocupação”). Nesse momento, a filosofia, agora helenística, pensa nas formas de como se viver bem, já que súditos não palpitam no governo de seu imperador.

Estabelecendo as regras dessa nova vida, o estoicismo emerge para pensar uma filosofia moral, na qual a verdadeira realização vital habita no desapego e no conformismo, ou seja, uma pessoa só é capaz de ser feliz quando é soberana de si e daquilo que realmente pode mudar; de resto, nada merece sua atenção. Ao negar os princípios naturais do Cosmos, como as tragédias, a morte e o envelhecimento, a consciência é contaminada com ilusão, rebeldia, raiva e infelicidade, que geram desejos e paixões irreais e potencialmente perturbadoras. Um bom estoicista preza por uma vida regida pela lógica (a verdade), pela física (princípio formador e único advindo de Deus) e pela ética (as virtudes).

A partir desse ponto, contrariar os eventos inevitáveis da existência humana é como discutir com uma parede: nada acontece. Dessa forma, encarar a vida segundo desejos pessoais e idealizar o mundo tornam-se um tiro no pé, pois isso só causará a escravização do ser por seus medos e angústias. Os acontecimentos da realidade são promovidos pelo Logos, uma força superior e totalmente inerente aos afetos que se esperam. Diante disso, a externalidade não importa, já que não pode ser mudada, enquanto a resignação é o meio ideal para viver na ausência de inquietudes e trabalhar a paz interna, apatheia (literalmente, “ausência de sofrimento”). O imperador romano, Marcos Aurélio, mesmo esbanjando grandes riquezas, status e poder, se inspirou no estoicista Epíteto ao declarar que a felicidade começa ao aceitar as coisas como são e ao amar as pessoas que o destino traz, o que poderia ser descrito como “Amor Fati” (“Amor ao destino”, em tradução literal) por Nietzsche.

Embora, temporalmente, imagine-se que uma escola filosófica finalizada no século III d.C. tenha sido simplesmente esquecida, seus pensamentos se espalharam na posteridade e perduram até os dias atuais. Ela é vendida como uma maneira de equilibrar a vida conturbada provocada pelos desdobramentos da globalização capitalista, mas também foi adotada nos primórdios do cristianismo ao prever atitudes simplistas e conformistas e usada na criação da terapia cognitiva-comportamental pelo psicanalista Albert Ellis.

Por fim, o estoicismo, assim como outras escolas filosóficas do período helenista que abraçaram as pautas morais para atingir a felicidade, se faz mais presente em nossa formação social do que se percebe, entrelaçando sua visão em manifestações culturais, terapêuticas e organizacionais.

Ian Lima, campus Maracanã

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