A principal inimiga dos ianomâmis é a burguesia

As imagens dos indígenas ianomâmis divulgadas em janeiro pelos jornais chocaram a todos. As diversas enfermidades que a comunidade vem enfrentando, o número de óbitos, a falta de saneamento básico e o próprio estado físico dos sobreviventes é tanto perturbador, quanto revoltante. Tal crise humanitária é decorrente de anos de descaso público e de sucessivos ataques de latifundiários, de grileiros e de mineradoras, que não hesitam em exterminar os povos nativos para aumentar seus lucros.

O genocídio, cometido contra os povos originários, não é nenhum segredo na história do Brasil, pois foi através dele e da escravidão que a burguesia nacional se ergueu. No entanto, ainda há quem negue esse processo, então vale a pena ressaltar algumas medidas governamentais recentes financiadas pelos latifundiários.

Além de declarações racistas e mentirosas sobre indígenas desde antes de seu mandato presidencial, Bolsonaro não só dedicou seu governo a facilitar a entrada de garimpeiros e grileiros na região por meio da fragilização dos marcos legais de proteção das terras, como também omitiu informações, desviou verbas destinadas a instituições voltadas à proteção dos indígenas e negligenciou os diversos pedidos de auxílio. O ex-presidente também apresenta ligações com operadores e financiadores do garimpo ilegal, bem como com agentes públicos que negligenciaram os problemas enfrentados pelos ianomâmis, dentre eles, a ex-ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, diretores da Funai e da Secretaria de Saúde Indígena.

Uma vez que o garimpo estava estabelecido na terra indígena, os rios foram contaminados com mercúrio, a caça afastada do local e, por meio do controle de pistas de pouso e de transporte rodoviário, a chegada de alimentos e de remédios foi impedida. Vale ressaltar que estas agressões ocorriam desde antes da pandemia, mas foram agravadas pelo COVID-19 e por muitas outras doenças que a poluição causou, além das próprias violências dos invasores.

Diante das várias determinações judiciais que autorizavam o uso da força policial para remover os garimpeiros, que também exigiam reforçar a distribuição de alimentos e de medicamentos, cercar os recursos dos invasores para pressioná-los a saírem da reserva indígena e retomar urgentemente o atendimento médico nos postos de saúde dentro da comunidade, Bolsonaro descumpriu tais medidas, reduziu os recursos voltados aos ianomâmis e emitiu uma nota em nome da União com informações falsas e omitindo a real situação.

Recentemente, iniciaram-se operações policiais e militares no território ianomâmi para remover os garimpeiros da terra. Nas imagens divulgadas é possível ver os equipamentos, máquinas e ferramentas de garimpo sendo incendiados, o que, a princípio, parece brutal, mas impede que o garimpo se restabeleça na terra indígena em questão ou em qualquer outra – o que provavelmente ocorreria se os agentes apenas retirassem os equipamentos, que acabariam sendo leiloados.

Outro fato importante é a situação dos próprios garimpeiros, que não receberam nenhum suporte das mineradoras para sair da terra. Aqueles que não foram presos pelos policiais enfrentam muita dificuldade para sair, como a falta de alimentos e a necessidade de caminhadas pela floresta, que podem durar dias.

A revolta do povo brasileiro não deve focar apenas nos políticos e nos garimpeiros que tomaram tais medidas, mas também na burguesia que os financiou e vai continuar a financiar outros, bem como irá usar de todo o seu poder político para alcançar seus objetivos. Nossos esforços não podem ser reduzidos ao apoio às políticas de reparação, mas devemos nos politizar e nos organizar contra a exploração da burguesia.

Natália Elvira, campus Maracanã

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