Shakespeare

A mecânica do ciúme em Otelo

Veja uma exposição sobre a obra Otelo, o Mouro de Veneza, por um prisma freudiano

Otelo, uma das mais conhecidas tragédias de Shakespeare, aborda o fatídico destino de um rico mouro. Ela tem como um de seus temas principais, além do racismo sofrido pelo general negro, o ciúme e a transfiguração do personagem à medida que este cresce. Ao início da obra, o amor de Otelo e Desdêmona, sua parceira, é confessado ao pai dela sobre as mais ternas juras, e tudo parecia perfeito para que se casem e sejam felizes em Veneza, cidade onde se passa a história. 

Porém, Hiago, um homem que se fingia de querido amigo do general, mas por suas costas arquitetava sua desgraça, começa seu curso em destino a arruinar tanto o amor dos dois, quanto a sanidade de Otelo. Por meio de diversas pequenas sugestões, como a sumida repentina de Desdêmona com um de seus amigos, um lenço dela encontrado na cama do mesmo companheiro e outros truques, Hiago consegue, com espantoso sucesso, plantar na cabeça de Otelo a ideia de que ele estava sendo traído. As coisas escalam a um nível tal que o personagem principal, em um ataque de ciúmes, matará sua parceira asfixiada.

Para discorrer sobre a interpretação do ciúme de Otelo, é necessário definir o que é ciúme. Como Freud descreve em seu artigo sobre mecanismos neuróticos, o ciúme, que é um sentimento causado pelo medo da perda da parceira e que irá gerar diversos outros sentimentos (tais como tristeza, raiva ou até nojo), pode ser categorizado em três tipos: normal, projetado e delirante.

Há pouco a se dizer sobre o ciúme normal, que não é necessariamente racional. Ele se baseia na crença de que o sujeito amado está perdido e, dela, advém uma ferida na autoestima do indivíduo como o culpado por não conseguir manter o relacionamento.

Todavia, o dito ciúme projetado é um tanto diferente: este, na verdade, trata-se de uma transferência inconsciente dos constantes impulsos a infidelidade do indivíduo a sua parceira, não percebendo que, na verdade, estes pensamentos remetem a si e são completamente alheios à companheira. Deve ocorrer mais comumente com os indivíduos realmente infiéis, que acabam por não reconhecer a transferência e, assim, aliviam sua culpa depositando seus impulsos como também pertencentes ao parceiro: “Se eu a traio assim, ela deve me trair muito mais”.

O terceiro tipo, o qual é radicalmente mais forte que os demais, é chamado de ciúme delirante, e é provocado por, além do já dito medo da perda do objeto amado, um intenso desejo sexual pelo suposto amante da parceira. Este desejo é reprimida pelo ego, uma vez que contraria a moral do indivíduo por ser uma relação homoafetiva, e, então, tem de se expressar de outra maneira. Assim, o desejo é expresso através do ciúme, como uma forma do inconsciente dizer: “Quem o ama é ela, e não eu”.

Recorrendo ao enredo da peça, uma boa hipótese para explicar em qual caso Otelo se aplica seria o ciúme normal, já que Hiago rodeia Otelo com diversas sugestões, que ficam cada vez mais profundas, de que sua amada estaria tendo um caso com seu amigo tenente. Isso poderia tornar justificável sua crença de que estivesse realmente sendo traído – o que, mesmo assim, não lhe dá razão ao que fez em resposta. Outra suposição seria o ciúme delirante, uma vez que Cássio, como o mouro inicialmente descreve, é um grande amigo, sendo forte e honesto. Otelo tem o tenente na mais alta estima. Esta vigorosa ligação concede margem a teorizar sobre uma atração sexual do protagonista pelo rapaz, que seria intensificada, tanto pela repressão veneziana da época às tendências homossexuais, quanto a um desconforto inconsciente pela suposição de que rapaz estaria amando sua parceira ao invés do próprio protagonista.

Sander Vilar – BM 141

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