Sade

A filosofia e o erotismo em Marquês de Sade

O escritor, donde veio o termo sadismo e principal símbolo da libertinagem, é o mais polêmicos em matéria de literatura erótica

Aviso: este artigo não é recomendado para todo mundo. Se for ler, leia-o sabendo que discutiremos as produções literárias mais terríveis da história da humanidade – pois não há nenhum crime imaginável que tenha ficado de fora dos textos eróticos de Sade. A utilidade de tal discussão consiste em ser o exemplo mais extremado da filosofia empirista. Leia por sua conta e risco.

Donatien-Alphonse-François de Sade, conehecido como Marquês de Sade, viveu entre 1740 e 1814, tendo passado pela grande Revolução Francesa. Trata-se de um imponente nome da literatura erótica: seu nome deu origem ao termo sadismo (dicionarizado em 1834), sua obra influenciou os principais pensadores do século XX (incluindo Freud, Albert Camus e Foucault) e seu romance mais conhecido, 120 Dias de Sodoma, só foi publicado mais de cem anos depois de sua escrita.

Os escritos de Sade eram tais que os vilões, que eram os personagens principais, possuíam uma justificação filosófica para seus crimes – a maioria deles, apenas imaginados por Sade. Neles, foi desenvolvida uma filosofia materialista, na qual tudo gira em torno da natureza, sagrada e absoluta. Todo restante, seja a religião ou as regras de conduta moral, deveriam ser deixados de lado.

Citemos a apresentação de 120 Dias de Sodoma, feita pelo próprio autor, para que se possa ter uma ideia mais completa da vida e da obra de Sade:

“E agora, amigo leitor, prepare o seu coração e o seu espírito para o relato mais impuro que jamais foi feito desde que o mundo existe, pois semelhante livro não se encontra nem entre os antigos, nem entre os modernos. Imagine que todo prazer honesto ou aconselhado por essa besta de que você fala incessantemente sem conhecer, e a que você chama de natureza, imagine que esses prazeres, digo eu, serão rigorosamente excluídos dessa coletânea e que, quando porventura aqui estiverem, serão sempre acompanhados de algum crime ou coloridos por alguma infâmia”.

Portanto, os personagens de Sade vivem na busca consciente pelo prazer a todo custo. Como dito pelo autor, “a primeira lei que a natureza me impõe é gozar as custas de quem quer que for”. Sua filosofia era denominada como “libertina” – a libertinagem era um modo de vida comum à certa parte da aristocracia francesa do século XVIII.

Do ponto de vista filosófico, Sade dá sequência às filosofias empiristas, que pululavam no século XVIII (com Locke e David Hume). Na visão deles, o conhecimento parte partia das sensações, de modo que dor e prazer não eram sentimentos opostos, mas apenas o mesmo sentimento em intensidades diferentes. Sade leva esse conceito ao extremo, de maneira que seus personagens extrapolam todos os sentimentos através do modo de vida libertino.

Graças a tal concepção de mundo, Sade definia sua filosofia como uma filosofia da alcova (ou seja, de puteiro) – esse é, inclusive, o nome de um livro que ele escreveu, em que se discute a religião, o aborto, o infanticídio, o amor, o adultério, o assassínio e os laços de amizade sob uma perspectiva naturalista (e antissocial) extremada.

Para citar uma das reflexões de Filosofia da Alcova, que ilustram o caráter geral da filosofia de Sade, recorramos a sua definição de amor: 

“Que é o amor? Ora, só poderemos considerá-lo como o efeito resultante de um belo objeto sobre nós; […] se possuímos o objeto, ficamos contentes; se for impossível, despertamos. Mas qual a base de tal sentimento? O desejo. E qual seu resultado? A loucura. […] Não há amor que resista aos efeitos de uma real reflexão. […] Portanto, mulheres voluptuosas, entregai vossos corpos tanto quanto puderes. Trepai, diverti-vos, isto é essencial; mas fugi cuidadosamente do amor. Ele só é bom quando físico, dizia o naturalista Buffon”.

Em resumo, Sade passou a maior parte de sua vida preso – seu principal trabalho foi escrito na Bastilha. Suas obras tiveram de ficar na clandestinidade, de forma que 120 Dias de Sodoma só foi publicado 100 anos depois de ser redigido. Sua filosofia consiste na exaltação extrema da natureza – diferentemente de Kant, que entenderia liberdade como a capacidade de subordinar seus instintos à razão (isto é, que só se é livre quando se faz aquilo que não se quer), Sade defendia que a liberdade é a licenciosidade total, a lubricidade ou, ainda, a liberdade das paixões e dos sentidos.

Para tratar do ponto de vista meramente literário, deixando de lado a discussão sobre a cosmovisão de Sade e sobre seu período histórico, seria preciso um artigo à parte. Nesse, eu me limitarei a citar que a trama de 120 Dias gira em torno de 4 libertinos, que reúnem, em um local completamente isolado, quatro prostitutas (que contam suas histórias de vida, hierarquizadas por ordem de horror, para inflamar a imaginação e preceder às orgias), e uma série de mulheres e homens de todas as idades, que cumpre funções diferentes. Entre as histórias contadas pelas prostitutas, há uma escala das “simples” – que costumam envolver coprofagia – até as assassinas – que terminam em mortes, e envolvem, não raramente, sacrilégios e cenas de tortura descritas detalhadamente.

Em uma das mais intensas, grotescas, repugnantes e criminosas paixões da classe das assassinas, a 137ª, Sade descreve: “Um incestuoso, grande apreciador da sodomia, para unir esse crime aos de incesto, assassinato, estupro, sacrilégio e adultério, é enrabado por seu filho com uma hóstia no cu, estupra a filha casada e mata a sobrinha”.

Para completar, considero necessário citar algumas das personalidades influenciadas por Sade – para que o leitor não possa ter a impressão equivocada de que seus escritos são um agrupamento de pornografia a esmo. Ao contrário, eles tiveram grande influência para o pensamento humano em geral.

Entre os que foram inspirados por Sade, estão os surrealistas – o Manifesto Surrealista diz que o autor era “surrealista no sadismo”; a revista Le Surréalisme au service de la révolution publicou diversos trechos originais de suas obras. O surrealista Guillaume Apollinaire descreve Sade como “o espírito mais livre que já existiu” e diz “esse homem que parecia não ter qualquer valor no século XIX pode vir a dominar o século XX”. Pasolini fez o filme Salò baseado em 120 Dias, um dos principais marcos na cultura da luta contra o fascismo de Mussolini.

Fora do mundo das artes, o psicanalista Lacan e o filósofo Foucault publicaram estudos sobre Sade; há quem considere que ele deu os primeiros passos na discussão pública do aborto e há quem considere que Nietzsche inspirou sua filosofia moral em Sade, embora não haja comprovação dessa segunda tese. Por fim, Simone de Beavouir publicou um ensaio chamado “Devemos queimar Sade?” e atribuiu o mérito de, com sua visão radical de liberdade, antecipar em 150 anos o existencialismo – corrente da qual ela fazia parte. Ainda, Max Horkheimer e Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, também escreveram sobre os livros do autor. Politicamente, ele atuou na Revolução Francesa (como Cidadão Sade) e lutou contra a pena de morte, sendo quase enviado à guilhotina por Robespierre por conta desse posicionamento.

Ou seja, Sade influenciou profundamente todo século XX, tendo sua influência distribuída por quase todas as esferas da filosofia, das artes, da psicanálise e até da política. Sua forma exótica, libertina e totalmente licenciosa de lidar com a vida, com a religião e com a sociedade atraíram a atenção de todos. Logo, somos obrigados a reconhecer que resta a dúvida, posta pelo famoso posfácio de Eliane Moraes: será que o século XXI finalmente está pronto para Sade?

O Brasil ainda é uma democracia?

Um debate muito negligenciado, que é tratado de maneira superficial, mas que conserva a maior importância é a respeito da caracterização do regime político brasileiro.

O fenômeno Rogério Skylab

Mais que um homem, menos que um fenômeno, Rogério Skylab, em sua vasta carreira, que data desde o começo da década de 90, sempre sofreu

Rolar para cima